Um brinde musical para a família

Agora, Lívia Nestrovski tem muito mais em comum com o pai, Arthur Nestrovski, que o sobrenome. Um disco para chamar de seu, neste caso, deles. Qual a melhor maneira de celebrar a genética generosa? Não sei você, mas eu não consigo pensar em outra coisa agora. Me diga aí.

posvoceeu_capa_

Bom, voltando ao assunto principal, “Pós Você e Eu”, com produção musical de Cacá Machado, aportou no mercado em maio deste ano, através do selo paulistano Circus, capitaneado por Guto Ruocco. Neste trabalho, calcado em voz (a dela), e violão (o dele), o repertório defendido reúne dez faixas, que passeiam por autores brasileiros de ponta (Luiz Tatit, Eucanaã Ferraz, Arrigo Barnabé), compositores consagrados (Jobim com Dolores Duran, Ary Barroso) e internacionais, em versões assinadas pelo próprio Arthur, que apresenta, também, criações autorais, a maioria em parceria com o já citado Luiz Tatit.

De um lado, temos uma cantora que é a mais brasileira das americanas. Lívia não faz parte do time das que se descabelam, nem é fofa, opaca, como muitas colegas, e muito menos tenta preencher falta de talento com referências batidas, conceitos surrados usados para emplacar erudição. Ótimo, porque o trabalho que estamos falando é de gente grande.

Do outro, temos um músico rodado, que extrai belezas aos montes no dedilhar do violão, violão este que, austero por natureza, não faz figuração ou se contenta com ‘uma ponta no álbum da filhota’. É como se Arthur fosse mais uma voz, e é. Já disse e repito: ótimo, porque o trabalho que estamos falando é de gente grande (sempre bom repetir).

Curiosamente, o primeiro grande momento vem em “Serenata” (Franz Schubert e Ludwig Rellstab, versão de Arthur), canção pré-Bossa Nova, gravada por Angela Maria, em 1961, no LP “Não Tenho Você”. Lívia adora as cantoras do rádio, é influenciada por elas, então, conclui-se que passou sem colar nas provas com a professora.

“Folha Morta” (Ary Barroso), ganhou novo ar com a classe de Lívia; em “Pra Que Chorar” (Robert Schumann e Heinrich Heine), dá para visualizar a cena cantada: “Vi seu rosto na cidade, você fugindo de você e de mim, vi a serpente – e era um sonho ruim, mesmo chorando eu não vou mais chorar”; “Matusalém” (Arthur Nestrovski e Luiz Tatit) reconfirma que Lívia gosta de ostentar nas influências, afinal, Ná Ozzeti e Vânia Bastos gritam nesta faixa.

De pai para filha, de filha para pai, o ouvinte tem um disco que come pelas beiradas, que precisa de disponibilidade para que, você, saque o que está sendo dito. E está tudo aí, montado na garupa do que a música brasileira tem de melhor, pós você e eu.

Arthur Vilhena.

 

Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com