Reflexões sobre o 1

number-1-matO baterista Giba Favery, em sua entrevista para o Drum Channel Brasil, tem razão: para os bateristas é muito importante saber onde está o tempo “1”. Se alguém na banda está perdido, a coisa mais importante que você pode gritar para ele é onde está o tempo “1”. Essa é a pedra angular em praticamente todas as formas de música, independentemente da origem. Estar no 1, ou ao menos saber onde ele está, pode ser a coisa mais importante a saber. Ao mesmo tempo, você pode não tocar nada no tempo 1, mas isso é igualmente importante para o groove. Mas o que é isso? Não vamos abordar esse assunto de uma maneira profundamente filosófica, mas realmente, o que faz do 1 “O 1”? Simplesmente, nós fazemos. O ponto onde cai o primeiro tempo de um compasso (o downbeat) em qualquer música e, basicamente, em qualquer fórmula de compasso que você queira tocar, é algo que devemos saber. Não importa se isso é por consenso (ou seja, todo mundo na banda coloca o 1 no mesmo ponto no tempo), ou se estamos contando para outro músico que esteja perdido, ou se estamos tocando sozinhos. Com a notável exceção de tocar totalmente “free”, onde não há realmente qualquer fórmula, o 1 é a coisa mais importante na música.

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Free Jazz do The Bad Plus

Agora você pode estar pensando que há outras coisas mais importantes, ou talvez mais orgânicas para fazer música, mas tudo acaba voltando ao 1. Vamos dar uma olhada em como esta orientação mental determina quase tudo na música.

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Bootsy Collins, do Parliament Funkadelic

Para os iniciantes, a música geralmente começa com o ritmo. O ritmo não é algo que existe fora da nossa cabeça — é algo que temos de perceber. Um pouco de paciência aqui: ondas sonoras estão em todo lugar, basicamente o tempo todo, e elas são essencialmente formas de energia. Nossos ouvidos direcionam a energia das ondas sonoras a um conjunto de nervos sensoriais especializados, e das mensagens que esses nervos enviam para nosso cérebro tentamos descobrir maneiras de organizar esta energia em alguma combinação de grupos que facilite sua codificação. Não importa como agrupamos esses sons, mas mentalmente tentamos codificá-los de alguma forma, que efetivamente é o papel do “1”. Ilusões rítmicas (como as de Gavin Harrison) são feitas ao subverter onde está essa “âncora” mental, para nos enganar e atribuir (ainda que temporariamente) um falso agrupamento em torno de uma série de sons. Bons exemplos disso são as músicas “Only Us”, de Peter Gabriel, e “Pie-Eyed Manc”, do Stanton Moore Trio – ouça essas músicas e veja se você se perde na contagem no início dos temas. Ritmicamente, o 1 é o principal sinal para todas as frases que se seguem na música, sejam frases de 8 ou 12 compassos ou qualquer outra coisa. Quando o ciclo padrão retorna, o “1” é o ponto onde percebemos o começo da frase.

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Stanton Moore Trio – Pie-Eyed Manc

Obviamente não podemos falar de ritmo sem falar de tempo. A maneira que nós sentimos o tempo musical (novamente, ele existe em nossa cabeça) depende da velocidade dos sons que ouvimos em relação ao tempo cronológico. O determinante do ritmo pode ser chamado um “Intervalo Entre os Estímulos” (a partir de agora, IEE, para simplificar). Um IEE é a quantidade de tempo entre o que percebemos como o momento do ataque de um evento e o início do próximo evento. Uma nota isolada não é um ritmo – é apenas um ruído. Quando duas ou mais notas se seguem umas às outras, nós automaticamente percebemos o IEE de modo que nosso cérebro possa organizar o que vier a seguir num padrão coerente (ou seja, qualquer subdivisão de tempo, sejam semínimas, tercinas, quintinas, e assim por diante). No entanto, o IEE é usado para além da organização do tempo; também é usado para agrupar padrões distintos, pela progressão relativa de IEEs de uma série de notas (em outras palavras, a síncope de uma frase musical). Assim, quando uma frase musical com muitas notas (tocadas perto umas das outras no tempo) é percebida por nossos ouvidos, decidimos se o IEE entre as notas bate com um padrão já reconhecido, ou faz parte de um novo padrão. Isso é importante, por exemplo, para distinguir as partes A e B uma da outra (sendo a melodia, obviamente, a outra parte). Necessariamente, não importa se o tempo varia (como acontece em muitas peças clássicas) ou se é constante – o IEE relativo entre as notas é o importante. “Complicado….”, você pode estar pensando, mas vamos voltar a por os pés no chão – os limites entre os padrões são uma parte vital de como percebemos a música. Se conhecemos uma música, nós antecipamos onde os limites entre as seções mais longas (por exemplo, A ou B, verso ou refrão, etc.) vão cair, e cada uma dessas seções são compostas de uma série de divisões menores que nos guiam ao longo do tempo. E qual é a sinalização desses limites? O 1! Por exemplo, numa frase de oito compassos, você pode contar “1, 2, 3, 4… 2, 2, 3, 4… 3, 2, 3, 4…” e assim por diante, mas o mais valioso é saber onde acontece o 1. Perceba o que acontece aqui: temos “1s” menores que marcam cada compasso sucessivo e atribuímos um 1 principal que marca o limite maior de frase.

Agora, o que mais existe além disso? Melodia? A melodia ocorre num contexto, e o início de qualquer frase melódica (mesmo se a notação seja uma pausa) é o 1. Síncope? Tem mais a ver com as pausas, mas tudo ainda acontece em relação à posição do imponente 1. Composição? Quase todas as peças são compostas em seções, e essas seções normalmente têm limites que caem sobre o 1 e teem que ser escritas como tal mesmo que haja uma fórmula de compasso diferente colocado em algum lugar. Isso nos leva a outro item interessante e talvez o mais revelador – todo nosso sistema de notação musical, seja notação para bateria, clave de sol, clave de fá, o sistema de Nashville, o sistema takadimi, ou o que quer que seja, começa no 1 ou depende muito de saber onde o 1 está. O 1 é pura e simplesmente a chave mestra para a música, seja ela escrita ou tocada.

Esse assunto pareceu enfadonho? Esperamos que não. Ainda assim, a importância do 1 em como percebemos a música pode ser maior do que você imagina, ou talvez você não tenha pensado muito a respeito antes. Compreender melhor o que a mente faz quando descobre onde está o 1 irá ajudar em sua musicalidade, seja para conversar com sua banda ou para fazer uma brincadeira com a plateia. Como bateristas, é nosso dever sermos os guardiães do 1, de modo que se alguém da banda se perde, você tem que reajustar, e onde você colocar esse downbeat é o que vale para todo mundo. O professor Giba Favery está certo mais uma vez.

Fonte: http://thisisyourbrainondrums.blogspot.com.br

Tradução e adaptação:  Drum Channel Brasil

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