Primeiro álbum do Barbarie, comentado faixa a faixa pelo trio

barbarie2Talvez Barbarie possa ser considerado uma espécie de coletivo – o trio é formado por um produtor musical (Rô Fonseca), um artista plástico (Edu Marin) e um diretor de arte (Bareta). Seja coletivo seja banda, Barbarie está com um disco novo em folha na praça. Estreia do grupo em álbum, o trabalho atende também pelo nome Barbarie. Na produção, os três componentes da banda não só compõem como também cantam, criando um cenário ao longo de faixas que, segundo os próprios músicos, “é um misto de Dorival Caymmi passando por Bill Frisell e chegando a Clube da Esquina”.

O disco, lançado pelos selos Mono.Tune Records e Baticum Discos e em download grátis no site do grupo, teve longa maturação. Finalizado em 2014, ficou guardado na gaveta, sendo ouvido apenas por amigos. Durante pouco mais de um ano de maturação do trabalho, clipes foram gravados e outras ideias visuais nasceram. O exemplo dessa efervescência são os cinco videos oficiais prontos e os três ainda em fase de produção – confira em https://youtu.be/FuVovEKH78o. E, para quem gosta (como a gente aqui), o disco sai em vinil ainda neste abril de 2016.

Ouça

Faixa a faixa

Mas qual a história por trás das músicas de Barbarie? Os integrantes do trio contam pra você, faixa a faixa.

01. Barbarie

A música é do Rô Fonseca e tem uma harmonia cíclica que vai modulando e que, apesar da melodia repetitiva, cria uma sensação instável, tirando o chão. Ouvindo a música o Edu lembrou na hora de algo que tinha escrito – com o mesmo clima de repetição – impressionado pelos ataques aos gays nas ruas de São Paulo, era meio um “esquece porque nada vai dar conta de amenizar a violência de uma porra dessas”. O texto chamava-se Arte Contra a Barbárie – que foi um movimento de algumas grandes Cias de Teatro aqui em São Paulo no final dos anos 90. Bareta que é um cara objetivo disse “Não precisa disso tudo aí, fica muito explicado. Deixa só barbarie e pronto!” O nome da canção acabou batizando a banda. A levada do arranjo ficou com um quê de Manu Chao, com berimbau, acordeom e um baixo de tuba. O cantar em uníssono dá um tom meio reza na letra que fica entre uma ladainha e um manifesto.

02. Alegria

Música do Bareta e letra do Edu. Basicamente é uma canção de dor de corno com uma pegada rock de praia, leve e divertida. Um trompete maluco na segunda parte da música e a guitarra surf ajuda no clima esquizofrênico de um fim de relacionamento. O popular “to ferrado mas to indo”. O último disco do Edu ficou conhecido por ter letras muito tristes, então pra quebrar esse ciclo da depressão saiu o mote de Alegria : “Parei, com aquele papo de tristeza…” mas é uma farsa, o sujeito tá triste, tá melancólico e tá fodido. Mas pelo menos ele ri de si mesmo.

03. Chico e Joao

Essa é do Edu, que fez pensando nos filhos já mais velhos encontrando com o amigo Miguel (que vem a ser filho do Ro) e se juntando com uma multidão que segue para uma manifestação. O movimento dos secundaristas começava a ganhar força em SP e a imagem é que um dia seriam os nossos meninos lá, com força, mas sentindo o vento no rosto, sem perder a ternura.

O legal desse arranjo é que ele foi feito de forma totalmente improvisada. O groove dos tambores e percussões foi concebido anteriormente e a partir dessa levada, o baixo, o violão e o cavaco foram tocados ao vivo pelos três e o arranjo foi se construindo meio que naturalmente. O overdub da guitarra deu um toque final nos contrapontos melódicos. As caixas de maracatu dão um pouco dessa carga de energia da molecada.

04. Menta

Musica do Bareta que já tinha melodia e um refrão grude feito pelo Marcio Arruda. A partir da idéia “Pra refrescar é menta…” o Edu escreveu todo resto da letra. A gente tem uma certa birra com canções “auto-ajuda” então essa era pra ser nossa música anti-auto-ajuda. É sobre não ter controle mesmo sobre as coisas. Tem todo aquele clima meio inconsequente de “a vida é isso mesmo e é hoje, aproveite”, com sexualidade latente mas ainda assim um pouco ingênua. A ideia do clipe surgiu daí, um pouco de sacanagem de verão que no final, numa sacada muito boa do Bareta, que criou e editou usando giffs animados, constrói uma sensualidade programática, repetitiva, como se tivessemos a obrigaçao de ser muito doidos. A onda que originalmente era meio latina virou um rock no arranjo e as frases de guitarra do Rô e sinths ficam na orelha do ouvinte.

05. Distraído

A música é do Ro e já existia. A partir do título (Distraído) o Bareta construiu uma letra que é quase um roteiro. É uma musica que tem uma sensualidade delicada e fala de encontros e desencontros na cidade. O refrão é o grande momento da música, onde o torpor da distração cria uma realidade paralela. O arranjo tem esse groove de surdo e uma guitarra fazendo contraponto que conduzem a música meio separadamente até o refrão quando praticamente se encontram num riff.

06. Água Preta

O Água Preta é um corrego que corre – subterrâneo, é claro – pelo bairro da Pompéia. A letra dessa canção é carregada de nostalgia de algo que não vimos nem vivemos e também de uma vontade utópica em relação a cidade. O arranjo com sintetizadores e bateria eletrônica dá um clima pop anos 80 e cria uma atmosfera etérea bem delicada que remete a esse sonho de uma cidade mais integrada a natureza. Nostalgia pura.

07. Álbum

Única música do album que é uma parceria dos três integrantes. O Bareta tinha uma idéia de melodia para a primeira parte, o Ro completou com a segunda parte e o refrão e o Edu fechou com um letra ultra-nostálgica. Fala sobre o fim, sobre a saudade, a incompletude e principalmente sobre a memória. O jogo de palavras com os lugares e as ações brinca um pouco com a idéia de que a memória é algo inventado, que criamos e recriamos o tempo todo. O arranjo tem um clima meio velho-oeste. Com tambores e guitarras com vibrato. Altamente inspirado nas trilhas do Morricone.

08.Três Meninas

Primeira canção que fizemos. O Rô fez uma canção instrumental em homenagem para a mulher dele e duas amigas de infância dela. O Bareta captou a idéia da distância, da proximidade e da intimidade. A música começa com o baixo criando um clima circense, de realejo. O fato de ser uma valsa, um compasso ternário, reforça a idéia da delicadeza e do numero 3. A interpretação soprada e amorosa do canto do Bareta também ajuda a reforçar essa suavidade.

09. Iansã

Tem letra do poeta e amigo Fabrício Corsaletti. A música foi feita pelo Bareta por encomenda de uma cantora que nunca gravou. O curioso é que o Fabrício não gostava do que havia escrito e nem sabia se queria o nome dele nos créditos até ouvir gravado; aí ele pirou. É o típico caso do cara que fez bem até quando acha que fez muito mal. Essa é um caso raro de muita sintonia entre música, letra e imagem (clipe) onde um reafirma o outro sem ser redundante. Fala sobre essa dualidade força/ sensualidade da mulher. O arranjo segue a mesma linha alternando momentos fortes e outros mais sutis e delicados.

10. Tarde

Musica do Bareta e letra do Edu. Demorou pra entrar no disco porque não conseguiamos enxergar o arranjo. Ficou no limbo um tempão. Levantamos essa versão para o primeiro show da Barbarie e ficou tão bom que não deu pra gravar de outra maneira. Única música do disco que tem participação de amigos tocando, o Matteo Papaiz no baixo e o Ricardo Valverde na percussão. A letra em flashes também remete aos mecanismos de funcionamento da memória. Mas diferentemente da música Album, ela olha pro futuro. É uma homenagem aos amantes.

Tem mais Barbarie em…

_site oficial – barbarie.com.br
_Facebook – facebook.com/bandabarbarie
_Barbarie é:

Rô Fonseca: guitarra, violão, baixo, bateria teclados e vozes
Edu Marin: guitarra, violão e voz
Bareta: guitarra, violão, cavaquinho e voz

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