Porque o pop-rock brasileiro não toca mais nas TVs e rádios populares?

supercombo-amianto-superstar-clipe“E o rock nacional?”, “Porque o pop-rock brasileiro não toca mais nas TVs, rádios populares?”, “Onde estão os novos herbert-viannas, renato-russos, arnaldo-antunes, lulu-santos, chico-sciences?”. Você deve estar cansado de ouvir essas perguntas, eu estou cansado de ouvir essas perguntas, mas me deixe usar um pouco do nosso cansaço para falar de algo importante a respeito de Rogério, o novo álbum do grupo Supercombo.

Parte importante do que moveu Léo Ramos (guitarra e voz), Carol Navarro (baixo), Pedro Ramos (guitarra e voz), Raul de Paula (bateria) e Paulo Vaz (teclados) em direção ao estúdio foi a necessidade de materializar a busca por essa nova dentição do rock brasileiro, da qual a banda faz parte, orgulhosa. Daí a quantidade de participações especiais, quase que como um mapa genético do grupo, com pares, influências e amigos como Emily (Far from Alaska), Gustavo (Scalene), Negra Li, Lucas Silveira (Fresno), Mauro Henrique (Oficina G3), Sergio Britto (Titãs), Keops e Raony (Medulla).

Juntar, agregar e se comunicar é o que os gêneros musicais populares vivem fazendo, e o que o rock desaprendeu a fazer. Mas há um barulho vindo das ruas e o Supercombo sabe disso muito bem – ele próprio é parte desse ruído, e um observador curioso de seu entorno.

Essa percepção foi sendo construída desde a fundação do grupo, em Vitória (ES) há nove anos, ao misturar rock alternativo, nerd-rock e pop-sem-medo-de-ser-feliz. Mas desabrochou ao longo do biênio 2014/2015, quando canções como “Amianto” e “Piloto Automático” ganharam as rádios rock das grandes cidades, e sua música se espalhou por todo o país graças à participação no programa SuperStar, da Rede Globo. Seus shows pularam do underground para espaços divididos por roqueiros antenados, adolescentes emburrados, curiosos, pais e crianças. Como aconteceu em algum momento de 1984 ou 1995 com aquele rock do qual dizemos sentir saudade.

É neste ponto em que uma banda deixa de ser uma promessa e passa a ser realidade. 70 milhões de plays, 50.000 execuções em rádio, uma turnê de 140 shows, festivais etc. Foi com a responsabilidade de ir ainda mais adiante que o Supercombo entrou em estúdio para gravar.

Rogério é o quarto álbum do grupo e o segundo desde sua mudança para São Paulo. Amadurece o que ouvíamos em Festa? (2007), Sal grosso (2011) e Amianto (2014) mas com alguns elementos que não podem passar despercebidos. O fundador Léo Ramos, que também trabalhou como produtor do álbum, diz que a banda quis “ousar um pouco mais” e “equilibrar estruturas mais simples e arranjos mais complexos” e “cuidar mais dos detalhes”.

Mas bastam alguns segundos de “Magaiver”, a faixa de abertura, pra notar que as andanças pelo Brasil, em palcos de Manaus ou Porto Velho, fez desabrochar um groove mais brasileiro e texturas que remetem tanto à matriz jorge-benjoriana quanto à seu revival no início dos anos 1990. Faz todo sentido que o primeiro single seja a dançante “Lentes” (com participação de Negra Li), boa para dançar e uma letra que propõe “olhar pra frente” e “escalar o monte Fuji só pra degustar as luzes acesas”. Seu refrão grudento dá a entender que a banda voltou dominando ainda melhor a manha da canção pop perfeita. Talvez seja ainda mais claro na caleidoscópica “Morar”, com seus imagens românticas e existencialistas e uma melodia ótima pra cantar junto.

Aliás, a capacidade do Supercombo de revestir de leveza assuntos pra lá de delicados continua tão impressionante quanto nos tempos de “Amianto” – que tratava, se você não notou, a respeito suicídio. Em Rogerio, um dos momentos mais impactantes é “Eutanásia”, que consegue falar de uma paciente em estado vegetativo numa canção dinâmica com participação do titã Sergio Britto. A fama do grupo por sua inclinação “muito humanas” (um elogio que sempre a acompanhou) acabou inspirando a ideia de darem ao novo álbum um nome próprio: Rogério.

O que começou com uma piada interna acabou amarrando boa parte do novo repertório, com citações ao “pão que o Rogério amassou” ou às más lembranças de um certo “meu Rogério”. Ao final, “Rogério” tornou-se uma personificação do lado mau de todos nós, o espírito ruim contra o qual tentamos lutar. Essa dicotomia acabou por inspirar o projeto gráfico de Juarez Tanure e suas experiências com laminas azuis e vermelhas que revelam – ou escondem – a “rogerização” das coisas.

O fato é que Rogério, o espírito ruim, passou bem longe das 12 faixas de Rogério, o álbum. O quarto álbum do Supercombo é um disco solar, delicado, universal e tropicalista, roqueiro e brasileiro, elétrico e cheio de loops e efeitos. É um passo em direção ao futuro, que a banda já experimenta hoje. E é um convite a todos os que esperam a próxima geração do rock nacional – comunicativa e vibrante – para que saibam para onde os ventos estão soprando

Ricardo Alexandre, jornalista e escritor

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