O aguardado primeiro álbum da cantora Mahmundi acaba de ser lançado. Produzido por ela e quase todo gravado em seu home studio, no Rio, o disco tem dez  faixas – cinco já conhecidas, em novas roupagens, e outras cinco inéditas.

Envolvida com música desde criança, Mahmundi trabalhou como técnica de som e roadie no Circo Voador, lançou os EPs “Efeito das Cores” (2012) e “Setembro” (2013). Em 2013 ganhou o Prêmio Multishow de Música Brasileira na categoria Novo Hit, por “Calor do Amor”. Em 2014 foi premiada novamente, desta vez na categoria Nova Canção, por “Sentimento”, faixa que encerra o disco de estreia. 

Não importa se for o tradicional ou o do aplicativo, no caminho de Mahmundi tem sempre um táxi – no Rio, onde nasceu, ou em qualquer cidade onde seja levada por sua música. E ela sabe aproveitar muito bem a viagem. Além de rotas e percursos, o passeio inclui também pesquisas informais sobre o que se ouve no rádio durante incontáveis corridas diárias. “Faço isso porque acredito no inconsciente coletivo, numa sonoridade universal, que seja confortável sem ser muzak, que todo mundo possa ouvir”

Viver em trânsito, em movimento – de forma figurativa ou não – jamais foi um problema para Mahmundi, cantora e multi-instrumentista que embarca no seu primeiro álbum completo e oficial, homônimo, pelo selo StereoMono, da Skol Music.

Mahmundi iniciou-se na música frequentando uma igreja no bairro de Marechal Hermes, subúrbio do Rio. Lá descobriu sua voz e teve acesso a instrumentos como bateria, violão e teclados. Sua evolução, porém, a partir de 2009 desenrolou-se entre cabos e plugs num templo pagão, o Circo Voador, o principal palco alternativo da cidade, onde trabalhou como técnica de som e roadie.

“O palco era uma casa pra mim, não um altar. Dormi muito entre fios, perto das caixas de som”, lembra ela. Debaixo da celebrada lona da Lapa, ela não apenas aprendeu as manhas dos bastidores, como também assistiu bem de perto a diversos shows marcantes – Air, Cat Power, Tame Impala, entre outros – e fez algumas amizades duradouras, como a com Liminha, que conheceu depois de elogiar uma guitarra vermelha cujo dono era o renomado produtor que acabou convidando-a para tocar numa banda só de mulheres na edição do Prêmio da Música Brasileira daquele ano.

A troca de papéis começou com o primeiro EP “Efeito das Cores”, lançado de forma independente em 2012. Ali, Mahmundi encontrou sua assinatura artística promovendo a união de boa parte de suas referências com uma sonoridade moderna e o apreço pelo formato de canção, tudo isso combinado ao imaginário ensolarado do cotidiano carioca. Foi onde tudo começou – os timbres oitentistas que fizeram com que fosse comparada a Marina Lima, fase “Fullgás”, a estética de nomes da geração 2010, como Toro Y Moi, Neon Indian e Ariel Pink. Trazia também parceiros que Mahmundi mantém até hoje, como o baixista Felipe Velozo e o produtor Lucas de Paiva. No ano seguinte lançou outro EP, “Setembro”, uma espécie de contraponto melancólico ao colorido do primeiro trabalho e que flertava com uma sonoridade mais R&B, atualmente uma forte característica de sua música, bastante presente no novo disco.

Cena carioca

Aos poucos, Mahmundi foi sendo naturalmente associada a uma então emergente cena do Rio. Uma inquietação e a percepção de alguma espécie de mau contato começou a incomodá-la. “De repente, estava virando uma nova referência da música do Rio, achavam até que eu morava em Ipanema por causa de músicas como ‘Arpoador’ quando na verdade, da minha casa até a praia, o mar – que é, sem dúvida, uma grande inspiração -, eu levava uma hora e meia”. Como dizia o trecho da letra: Eu pego o trem e atravesso a cidade/Pontes da Zona Norte/A Zona Sul dentro de mim.

Seu álbum de estreia começou a ser esboçado já com essa sensação de deslocamento do próprio universo que havia projetado seu nome. Em 2013 ganhou o Prêmio Multishow de Música Brasileira na categoria Novo Hit, por “Calor do Amor”. Em 2014, após tocar no exterior pela primeira vez – no México, no festival Bahidora -, Mahmundi foi premiada novamente no mesmo Prêmio Multishow de Música Brasileira, desta vez na categoria Nova Canção, por Sentimento – faixa que encerra o disco de estreia. No júri especial do evento, estava Carlos Eduardo Miranda, produtor e uma das figuras mais queridas e respeitadas do mundo alternativo brasileiro.

“Ele veio falar comigo, disse umas coisas bacanas sobre meu trabalho e me convidou para o selo, dentro do projeto que estava sendo montado pela Skol. Eu topei na hora, senti que era o momento de passar para a próxima etapa” – lembra ela. “Encontrei também o Lincoln Olivetti – maestro do evento -, que veio me elogiar. Fiquei tão emocionada que esqueci e quase perdi o troféu”. Depois disso vieram mais shows pelo país, inclusive fora do eixo Rio-São Paulo, e também em Portugal, sendo o principal deles no Vodafone Mexfest 2015.

Feito em casa

O esperado debut foi quase todo produzido pela própria Mahmundi no home studio da artista, no Rio, durante o verão de 2015, mantendo as conexões que a trouxeram aqui: Felipe Vellozo e Lux Ferreira, que fazem parte de sua banda, e Lucas de Paiva, que produziu o primeiro EP e também os arranjos da nova canção “Eterno Verão”.

As vozes, porém – uma das principais marcas deste novo trabalho, agora com um maior enfoque nas qualidades vocais de Mahmundi -, foram registradas em São Paulo, com a ajuda da preparadora vocal Bel Hammes. “Isso foi fundamental, aprendi muito com ela. Nunca tinha tido uma experiência assim”, destaca. Com as faixas quase finalizadas, Mahmundi voltou ao Rio, para “esquentar” o material no estúdio de Kassin, em Botafogo. “Esse processamento do áudio, sugestão do Miranda, dá realmente um outro volume para as faixas gravadas em casa. Além disso, foi o máximo ficar alguns dias grudada no Kassin. Tem um ganho muito grande nessas relações cara a cara”.

“Mahmundi” (Stereomono/Skol Music), o álbum, ficou enfim pronto, com dez calorosas faixas: cinco já conhecidas, porém em novas roupagens, e outras cinco inéditas (“Era um ciclo que eu tinha que fechar. Este disco representa um novo momento e é ao mesmo tempo um resumo desta história até aqui”, afirma), recheadas de letras românticas e a mesma forma peculiar de expor emoções, das mais simples e cotidianas até aquelas menos compreensíveis. “Tenho um parceiro nas letras, Roberto Barrucho, e nossa linha de criação gira, de fato, em torno desse clima emocional, romântico, de flerte, que é bem típico do Rio, mas, claro, pode acontecer em qualquer lugar”.

Curiosamente, o álbum chega quase ao mesmo tempo em que Mahmundi troca sua cidade natal por São Paulo, para onde se mudou há pouco. “Eu comecei a gravar e produzir minhas músicas quando tinha cerca de 25 anos. Agora estou chegando perto dos 30 e queria me entender e me provocar como artista e como pessoa. Daí a vontade e a necessidade dessa mudança. E estou gostando muito da vida em São Paulo”, garante. “Talvez amanhã eu vá morar em Portugal ou em Tóquio, quem sabe? Por isso, acho que a capa do disco – com aquela luz alaranjada que remete ao Sol, mas na real um fundo infinito – reflete bem esse meu momento. Eu posso estar em qualquer lugar com a minha música”.

(texto: Carlos Albuquerque)

O álbum “Mahmundi” (Stereomono/Skol Music) já está disponível nas principais plataformas digitais e, em breve, nas lojas físicas. Para ouvir, acesse: https://www.youtube.com/watch?v=Mg_DKLVxgM4&list=PLnFV59amFCNwwIR55BE1XfY88BiCm0q7b