O ensolarado rock praieiro da California


Por Marcia Campos

California. É comum ouvir-se nos Estados Unidos que todos os loucos foram banidos para o oeste e que, por isso, o estado da California é da forma que é. Talvez seja por este motivo que o nome caiu tão bem à banda de Maresias. Não, nenhum dos membros veio da ensolarada costa oeste norte-americana, mas, essencialmente, da não tão ensolarada costa sul sebastianense.

Tudo começou com um sonho juvenil – assim, como qualquer outra banda -, o diferencial, porém, se dá pela determinação de fazer o sonho acontecer. Dentre as tantas bandas que se formam de tempos em tempos no litoral norte de São Paulo, poucas possuem a garra para levar o sonho adiante, logo dissolvendo-se na rotina de cidade pequena, corroídas pela ferrugem da maresia. Contando com pouco apoio à cena local, persistir é difícil, e é isso o que, à priori, destaca California da maioria das bandas surgidas na região.

California, que iniciou suas atividades em 2011 e já marcou presença em inúmeros festivais alternativos, conta com Will Takashi (vocal), Léo Iório (guitarra), Leís Lima (guitarra), Cello dos Anjos (baixo) e Kleber Amorim (bateria). As influências passeiam do rock à música eletrônica, sendo fácil notar uma forte predominância de características do New Metal e Post-Hardcore, gêneros em voga na época em que a banda foi formada.

O debut da banda foi o álbum Fênix, de 2011. Das 12 faixas que compõem o trabalho, o destaque vai para “O Despertar”, “Fênix” e “Entre Gritos e Sussurros”. A sonoridade é crua, mas apaixonada. O amadorismo presente nas canções faz jus à etimologia da palavra: existe amor ali; nada é simplesmente cuspido para agradar uma audiência e tudo possui significado.

Em 2013, California lança o EP Até o Fim, com 5 faixas que deixam de lado o peso do metal e adotam uma sonoridade mais melódica. Com menos caos e mais arranjos de violão, fica ainda mais evidente a evolução profissional da banda, que mostra uma nova faceta.

No entanto, o trabalho de maior destaque da banda – até o momento – é o EP La Vendetta. Lançado em 2015 e massivamente divulgado nas redes sociais, não deixa nada a desejar. O amadorismo e a sonoridade crua são abandonados de vez. As canções encontram a dosagem certa ao mesclar o pesado e o melódico – sem medo, mas sem exageros desnecessários. Das 4 faixas, três possuem clipes que podem ser contemplados no canal da banda, e todas as canções merecem destaque especial.

As letras são um parágrafo à parte. Apesar da forte presença de temáticas como relacionamentos e existencialismo, California não tem medo de explorar questões sociais, com a indignação e o questionamento que somente uma visão sincera pode despertar, o que pode ser visto em canções como “1.2.1.3” (“A bala que vara a janela da sala/ E mata o sonho de alguém/ É a mesma que sai da boca daquele que fala que dá/ Mas o povo não tem/ Seu direito é viver de migalhas/ De boca fechada/ Só obedecer/ Ordem e progresso é só pra quem está no poder”) e “Como a Chuva” (“Que humanidade é essa que não pode dar as mãos/ Sem antes olhar para a pele e não pro coração?/ Às vezes eu sinceramente penso em respirar/ Mas se a maldade não descansa, eu não vou descansar”), ambas presentes no EP La Vendetta.

Além disso, a banda California vem produzindo novo material, com previsão de lançamento ainda para este ano. O novo álbum promete ser inovador, contando com novas influências.

Até quem não se interessa muito por esse gênero musical vai achar difícil ficar parado nas apresentações ao vivo da banda, sempre viscerais e contagiantes. Mas não confie em mim. Confira a obra da banda e, se possível, marque presença em suas apresentações ao vivo e tire suas próprias conclusões.

E que a California não pare tão cedo, seguindo com seu sonho juvenil que reflete os sonhos de todos nós.

Ouça “Baile de Máscaras”

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