Luciano Perrone

lucianoperronewebNa ampla casa onde mora, em São Cristóvão, zona norte do Rio de Janeiro, o baterista Luciano Perrone, 92 anos, ainda guarda a partitura do jingle executado por ele, em 1941, para a abertura do Repórter Esso. O trabalho tornou-se marca registrada das notícias sobre a Segunda Guerra Mundial, algo tão popular quanto a vinheta dos plantões do jornalismo da Rede Globo hoje em dia. Mas Perrone alcançara a fama três anos antes, quando inventou um tipo de bateria unindo instrumentos de percussão aos tambores e tamborins. “Dei origem ao ritmo de samba”, conta.

Embora tenha aprendido canto aos 5 anos e atuado como solista em recitais líricos, a história de Perrone começa em 1917, um ano antes da Primeira Guerra Mundial chegar ao fim. Aos 9 anos, foi o único menino a contracenar com o célebre tenor italiano Enrico Caruso, que veio ao Brasil para se apresentar no Teatro Municipal. Luciano agiu com tamanha perfeição que, ao final da ópera, recebeu um convite do regente para estudar na Itália. “Naquela época, as crianças não tinham tanta liberdade e os pais sequer pensavam em deixar os filhos estudar fora do País”, conta.

No ano seguinte, em 1918, Luciano parou de cantar. “Sofri muito com a morte do meu pai, vítima da terrível gripe espanhola que assolou o Brasil”, explica. O menino também interrompeu os estudos de canto. Dois anos depois, insistiu para que a mãe, a pianista Noêmia Franklin Batista Perrone, lhe desse algumas aulas. Foi o suficiente para arranjar o primeiro emprego, aos 14 anos. “Tive que trabalhar para ajudar”, explica. Como o pai fora chefe das orquestras que acompanhavam os filmes mudos na Cinelândia, o adolescente, aproveitando seus contatos, conseguiu “dublar” Jackie Coogan, ao vivo, durante as sessões do filme O Garoto, de Chaplin, no Odeon. “Ganhei 400 mil réis para falar meia dúzia de palavras”, conta.

Na época, acontecia a transição do cinema mudo para o falado e apenas algumas frases dos atores eram dubladas ao vivo. Com a quantia, comprou a farda de gala do Colégio São Bento, onde passou a estudar. A roupa foi usada no dia de sua primeira comunhão, mesma data da chegada dos aviadores portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral ao Brasil, pilotando o hidroavião Fairey 17. Foi também em 1922 que ele tornou-se baterista de uma das orquestras mais importantes, que tocava no Odeon. “A bateria era composta por um tarol, colocado sobre uma cadeira, um prato pendurado e um bumbo sem pedal”, recorda-se. Passou a receber 19 mil réis por dia, no turno de 13h a meia-noite. Teve que abandonar os estudos.

Aos poucos, ele foi percorrendo diversos outros cinemas e teatros, tocando em muitas orquestras. Em 1927, Perrone registrou em disco, pela primeira vez no Brasil, batidas de samba em caixa surda, sons considerados impossíveis de serem gravados. Dois anos depois, casou-se com a dona-de-casa Cora da Silva Araújo, mãe de seus dois filhos.

Na lua-de-mel em Lambari (MG), ele conheceu o pianista Radamés Gnattali, que viria a ser seu maior parceiro instrumental. “Ele me convidou para acompanhá-lo no fox ‘Gato no Telhado'”, lembra. A amizade ficou tão forte que Radamés ensinou o baterista a tocar piano. “Foi por causa das aulas dele que eu pude tocar tímpano em um concerto sinfônico em 1932”, diz. Aos 26 anos, Luciano atuou como percussionista na Rádio Clube do Brasil. Dois anos depois, participava do programa de inauguração da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. “Cheguei a gravar o tema ‘Luar do Sertão’ como jingle da Rádio Nacional”, diz.

Em 1941, Luciano fez sua primeira viagem internacional para Buenos Aires. Na época, integrava a orquestra de Radamés Gnattali, que se apresentou no programa Hora do Brasil, em cadeia com a Rádio Nacional de Montevidéu. “Já estava separado da minha mulher, que acabou ficando com meus filhos para eu viajar”, diz. Em parceria com o pianista, Perrone gravou pela Continental, em 1949, vários discos importantes, entre eles “Tico-Tico no Fubá” e “Fim de Tarde”. Em 1955, ele conheceu Marta Rocha e Emilinha Borba, ao participar da gravação do disco “Abraço Fraterno”. “Nesta época, eu já fazia parte do Sexteto de Radamés”, conta.

Em 1960, com Chiquinho do Acordeon, Luciano integrou a III Caravana Oficial da Música Popular Brasileira e excursionou pela Europa. “Foi de uma tacada só que eu conheci Lisboa, Paris, Londres e Roma, lugares que só conhecia pelo mapa-múndi da escola”, brinca. Ao completar 25 anos na Rádio Nacional, transferiu-se para a Rádio MEC, inaugurando a Orquestra Sinfônica Nacional. Deixou de ser baterista para tornar-se timpanista. “Logo depois, fui contratado pela TV Excelsior do Rio de Janeiro”, lembra.

Em 1963, ele lançou o LP “Batucada Fantástica”, álbum que mereceu o Grande Prêmio Internacional do Disco, em 1967, concedido pela Academia Charles Cros, de Paris. Em 1968, Luciano se aposentou, se desligando de vez da Orquestra Sinfônica Nacional. “Só em 1972 voltei a gravar um novo LP, que foi o ‘Batucada Fantástica volume 3’”, conta. Daí em diante, ele só quis saber de viajar. Conheceu os Estados Unidos, Japão, Porto Rico, México, as Bahamas, Turquia e Escócia, entre outros países.

Hoje aposentado, Luciano ainda sabe movimentar as baquetas. Mas prefere acompanhar a evolução da bateria e do samba pela tevê e não mais como juiz no quesito bateria no desfile das escolas de samba do Rio, função que exerceu de 1974 a 1976. “Hoje, o que mais se vê são as escolas tocando marchas, e não sambas”, critica.

 

Tocou com:

Radamés Gnatalli

Radio Nacional do Rio de Janeiro

Radio Clube do Brasil

Orquestra Sinfônica Nacional

Fonte: Portal Terra

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