Flor do Jequitinhonha

Uma voz áspera como a língua de um gato, também daquelas em extinção: você ouve e não lembra de ninguém. Déa Trancoso é um caso à parte no mundo da música impopular brasileira. Em 29 anos de carreira, trilha chão de terra batida que, os poucos e bons que passam por ele, descobrem que o caminho é tão bom quanto chegar.

Mostra Cantautores - 09-12-15 - ©Pablo Bernardo

Mostra Cantautores – 09-12-15 – ©Pablo Bernardo

No último dia 18 de junho, sábado, esta mineira fez o show “O Vento Varreu a Minha Cabeça”, dentro da programação do Dia da Música, no Doce de Cidra. O título curioso adianta o que vem por aí: “O vento varreu minha cabeça é o dois da parte cantada da trilogia “Líricas Breves para a construção de uma alma”, meu primeiro livro, ainda em fase de edição”, afirma.

Na ocasião, subiu ao palco, sozinha, pela primeira vez. A justificativa para tal faz parte da busca pela simplificação, onde, segundo Déa, “o que mais sinto ali é que estou pulsando vida plena”. Para quem acompanha seu trabalho e a viu em cena nas duas vezes anteriores em que esteve em Curitiba, nada de anormal.

Em mais de duas décadas de carreira, a artista já fez aportar no mercado três discos: a estreia, “Tum Tum Tum”, chegou em 2006, quatro anos depois, relançado em parceria com a Biscoito Fino. Em 2011, é a vez de “Serendipity”. No ano seguinte, em parceria com Paulo Bellinati, “Flor do Jequi”. Um box, com sua obra completa, foi lançado em 2012. Para quem tinha esperanças de que seu próximo trabalho fosse dedicado a Nelson Gonçalves, uma má notícia: “Continuo amando o Nelson, mas já não tenho ganas de realizar. Eu tenho ficado cada vez mais à margem dos desejos”.

“Se entendo comércio como o jeito de fazer a música que faço se transformar em dinheiro, eu lido de uma maneira mais orgânica. Menos arrogante e mais fluida. Assim como um rio que está sempre indo”, assim a cantora se relaciona com a comercialização da música nos moldes de hoje, comercialização esta que, devido as muitas possibilidades e ferramentas disponíveis, exige do artista domínio de várias linguagens, noções de marketing e paciência para angariar público.

Na ponta do iceberg, a tão falada, comentada, adorada e odiada crítica especializada. Neste tópico, a formação em jornalismo, pela PUC Minas, ajuda Déa, que não a vê, de maneira geral, com bons olhos: “Num dos seus piores momentos. Completamente a serviço dos que detêm o poder e o dinheiro”, conclui.

Mesmo navegando no mar da independência, gerindo a própria carreira e enfrentando um país caótico enquanto conduz o próprio trabalho, o que gera dúvidas e incertezas, ela tem um mantra curioso para seguir adiante, bem familiar para os curitibanos: “Não discuto com o destino, o que pintar eu assino” (Paulo Leminski). Que assim seja, Déa.

Arthur Vilhena.

2 Comentários

  1. déa trancoso

    adorei. nunca me senti tão bem representada. texto de altíssimo nível. escuta privilegiada. grata arthur querido.

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