Flavio Pimenta

flaviopimentaPor Flavio Pimenta

Estudo música desde os dez anos de idade. Tenho 52 anos, nasci em São Paulo. Iniciei meus estudos com música erudita em São Paulo na Escola Municipal de Música. Estudei outros instrumentos musicais, mas minha paixão sempre foi percussão, seja erudita popular ou étnica .

Apaixonado pela música como sou até hoje, segui meus estudos como aluno do Conservatório Dramático Musical de São Paulo. Fui músico da Orquestra Jovem Municipal e também estudei na Escola Paulista de Folclore, com o Professor Rossine Tavares de Lima e tive aulas particulares com músicos profissionais.

Toda a adolescência passei estudando música e comecei cedo a trabalhar com ela. Tive oportunidade de ser convidado para gravações e apresentações públicas com artistas populares. Os primeiros trabalhos, acredito, aconteceram quando tinha 12 anos.

Fui muito precoce. Meu pai era presidente da Texas Oil (Texaco) no Brasil, administrador de empresas e minha mãe fazendeira. Ambos não aprovavam minha escolha e temiam que esta pudesse atrapalhar meus estudos junto à escola regular, o que de fato não aconteceu.

Formei-me e segui músico. Como músico, lembro que passei toda minha adolescência tocando, gravando e excursionado com artistas e orquestras.

Aos vinte anos, quando minha filha nasceu, me dediquei a dar aulas em conservatórios e escolas de música para cuidar da família, comprar casa, etc…

Na década de 80 criei minha própria escola de música. Chamava-se “Drum”, um curso livre de percussão. Nas décadas de 80/90 passaram por ela mais de mil alunos, muitos hoje músicos profissionais, o que me faz orgulhoso. Minha escola também me capacitou como produtor de eventos. Realizei encontros de percussionistas de todas as áreas e lugares do Brasil (eventos que trazem  boas lembranças foram os Encontros Brasileiros de Bateristas e Percussionistas )e eventos como Heavy Metal Drumers com meus alunos Fernando Shaefer e Ivan Busic .

Em seguida, montei um estúdio de gravação que acabou tornando-se uma produtora de áudio para publicidade. Trabalhei e continuo trabalhando muito com agências, realizando trilhas para teatro, TV e cinema, criando e arranjando jingles, spots e locuções para campanhas publicitárias e etc.

No início dos anos 90, trouxe para o Brasil uma filial do Blue Note (famoso clube de Jazz de Nova York). Acho que, neste momento, eu estava mais próximo de ser empresário do que músico, embora nesta época também lembro que participei de um grupo de música pop em que fazíamos muitos shows e programas de tv.

Nos anos 90 trabalhei como Endorser de fábricas americanas  de instrumentos musicais Remo e Zildjian . Ajudei a encontrar parceiros comerciais para essas empresas no Brasil e, em seguida, passei a desenvolver projetos de marketing: musicais pedagógicos para essas mesmas fábricas de instrumentos no Brasil e nos EUA.

Em 96 recebi um convite das mesmas empresas americanas para trabalhar nos EUA. Enquanto me preparava para sair do Brasil, comecei o que hoje é a Associação Meninos do Morumbi.

Moro em São Paulo, no bairro do Morumbi, região sudoeste da cidade, um bairro sofisticado. Costumo dizer que é uma “ilha de prosperidade” cercada de favelas por todos os lados. São muitas as comunidades pobres; a maior delas, chamada Paraisópolis, é a segunda maior favela da cidade.

No ano de 96, em um de meus passeios pelo bairro, encontrei algumas crianças pedindo esmolas e nadando nas lagoas sujas de uma praça próxima de minha casa, ao lado do Palácio do Governo do Estado. Fiquei  triste com a cena. Já havia há muito reparado no número cada vez maior de crianças em grupos, pedindo esmolas e usando drogas na região, sempre em horários que, ao meu entender, deveriam estar na escola.

Disse a eles que era músico e que estava montando uma banda, um grupo de percussão. Perguntei se gostariam de tocar comigo. Sabia que se os convidasse para aulas evidentemente não aceitariam.

Estavam fora da escola e não suportariam a rotina da sala de aula, mesmo sendo para aprender música. Então convidei todos à minha casa para conhecer meu estúdio.

Assim, começamos uma rotina de ensaios e aulas de música que fui construindo sempre de forma muito lúdica, para ser prazerosa. Era importante este aspecto para poder competir em pé de igualdade com a atração que as ruas e a droga, a mendicância davam a eles. Era como tentar pescar um peixe grande com linha muito fina. A sensação que eu tinha é que iria perdê-los a qualquer momento.

Estes primeiros jovens trouxeram outros e, em menos de um mês, éramos mais de trinta. Como minha casa ficou pequena, as aulas aconteciam na rua. Neste momento lembro que os convidei também para fazer esporte comigo. Aluguei uma quadra de futebol e tínhamos então duas atividades definidas: aulas de música e futebol.

Uma amiga jornalista fez uma pequena matéria sobre o que estava acontecendo e fui procurado pelo SOS Criança; uma espécie de ante-sala da FEBEM (a atual Fundação Casa), organização que  cuida de menores infratores no governo de São Paulo. Comecei recebendo-os em minha casa e, em seguida, como voluntário, dava aulas nas próprias instituições  no bairro do no Brás, aqui em São Paulo. Estava com crianças pobres até então, mas não infratoras e fiquei fascinado por ver o quanto a música e este sociabilizante eram eficientes no sentido de criar possibilidades de transformação em suas vidas.

Tudo começou em março e minha viagem estava programada para julho, em maio já participavam das aulas, alimentação e atividades esportivas mais de cem jovens. Éramos uma “banda”, havíamos desenvolvido um pertencimento e uma identidade. Eu já cuidava de encaminhá-los para dentistas, psicólogos, médicos, escolas, o que estivesse ao meu alcance para ajudá-los.

Fui me envolvendo cada vez mais e acabei deixando de lado a proposta de trabalho fora do Brasil.

Em 97 nos tornamos pessoa jurídica formal sem fins lucrativos, uma ONG. Por coincidência, nosso Estatuto tem a data de registro de 12 de outubro, dia da criança.

Há dez anos a maior parte do meu tempo dedico a cuidar da nossa instituição, embora tenha minha empresa prestadora de serviços em música e atividades como músico e produtor.

Não parei a vida para fazer assistencialismo ou benemerência, fugimos do estigma assistencialista. Sou músico, educador, pai, adoro criança. Continuo sonhando com o sucesso do nosso Grupo Artístico mas, mais do que isso, sonho com o sucesso de cada jovem aqui como ser humano e cidadão.

Entendo que peguei meu projeto de vida e coloquei todo mundo dentro. Hoje somos um sonho coletivo que fez e faz diferença na vida de todos aqui. Embora tenha outras atividades profissionais, os Meninos do Morumbi continua sendo minha melhor obra e grande paixão.

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