Criativo vs Lógico

brain_matUma ideia muitas vezes discutida por alguns bateristas é sobre existir um lado “criativo” e um “técnico” ou “lógico” do cérebro (direito e esquerdo, respectivamente). Todos sabemos que a prática é extremamente importante, porque sem a prática não desenvolvemos técnica nem timing, e sem essas coisas não podemos tocar com confiança. Também sabemos que sem aperfeiçoar a capacidade criativa, nada do que queremos dizer com o instrumento pode se expressar. Mas pensar que essas duas capacidades estão em conflito é errado, e pensar que o cérebro é organizado desta forma não apenas é enganoso, mas também grosseiramente simplificado.

Nos seres humanos, os dois lados do cérebro estão em constante comunicação, e um lado depende fortemente do outro. Curiosamente, há casos em que os dois lados do cérebro são seccionados na região denominada cientificamente de corpus callosum (isso às vezes é feito em casos graves de epilepsia) e, tirando algumas pequenas inconveniências (o cérebro não tem nervos sensoriais, portanto não há dor nos procedimentos de separação dos hemisférios), há relativamente poucos efeitos colaterais em termos de perturbar o pensamento ou o comportamento. Se você ainda não sabe, os dois lados do cérebro, em sua maior parte, fazem as mesmas coisas, particularmente quando se trata de movimentar nossos corpos. O lado esquerdo do cérebro envia sinais para mover o lado direito do corpo e vice-versa. Sem que ambos os lados do cérebro estejam trabalhando juntos, tocar uma batida simples seria uma tarefa hercúlea. Os dois hemisférios cerebrais dependem muito da comunicação cruzada entre eles, e possuem a incrível capacidade de redirecionar os sinais através de canais alternativos – a chamada plasticidade cerebral -, mesmo que o cérebro tenha sido danificado, intencionalmente ou não, tal como nos casos em que alguém tenha que reaprender a andar depois de um acidente. Toda a ideia de um lado “criativo” e um lado “lógico”, como uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, enfatiza o fato de que algumas áreas do cérebro são especializadas em determinadas funções. De fato, na maioria das pessoas o lado esquerdo do cérebro é responsável pela linguagem, e o lado direito é especializada no processamento espacial (movimento e orientação dos objetos no espaço e coisas do gênero), mas há literalmente milhares de informações compartilhadas entre os hemisférios do cérebro sobre informação visual, informação motora (movimentos do corpo), informações sensoriais, etc. Não temos um lado criativo, nem temos um lado técnico ou lógico – em vez disso, ambos os lados complementam o outro e funcionam como um time. Mas, e daí? O que isto tem a ver com tocar bateria? Para começar, vamos falar sobre como usar as noções de “criativos” versus “técnico” de uma forma que faça sentido. O que pensamos sobre ritmos e a forma como abordamos o instrumento podem ser guiadas pelo equilíbrio entre a criatividade e a lógica. Sem a lógica dos padrões, a matemática necessária para compreender os ritmos, e a rotina técnica para desenvolver a coordenação física e o controle, vamos falhar em como tocar. Sem a criatividade das escolhas musicais, usando pausas e texturas, e integrando ideias musicais por novos caminhos, estaremos falhando no que tocar. Pense na relação entre essas duas coisas – concentrar-se apenas em uma delas não fará de você um bom baterista. Mas a combinação do técnico e do criativo é o que nos torna capazes para o instrumento. Qualquer grande baterista, seja Buddy, Elvin ou Vinnie, é muito mais do que simplesmente um mestre da técnica. Eles pensam em tocar de uma maneira que ninguém pensou antes, e/ou num contexto musical que ninguém criou antes, e é isso que torna as performances desses bateristas memoráveis, uma vez que foram/são livres para tocar o que quiseram sem se preocupar com a habilidade técnica. Se você é capaz de tocar qualquer coisa sem se preocupar com a técnica, o céu é o limite. Não existem duas forças opostas lutando na sua cabeça; só há você e a maneira como o cérebro é direcionado a funcionar. E se você acha que seu estilo é muito técnico, você não é um caso perdido. O mesmo vale se sua pegada é fraca e você não tem as habilidades para executar suas ideias musicais. Todos somos bateristas ruins num determinado ponto, mas aprendemos a melhorar. Podemos melhorar sempre. De maneira nenhuma criatividade e técnica estão em desacordo uma com a outra – uma facilita o desenvolvimento da outra. Como bateristas, estaremos enganando a nós mesmos se nos concentrarmos exclusivamente em apenas um lado da moeda.

 

Fonte: http://thisisyourbrainondrums.blogspot.com.br

Tradução e adaptação: Drum Channel Brasil

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