A reinvenção de Kazufumi Miyazawa

Apaixonado pela música brasileira desde a adolescência, o cantor, compositor, poeta e ator japonês Kazufumi Miyazawa já fez um punhado de shows no Brasil em seus 26 anos de carreira e teve pelo menos um de seus álbuns produzido (por Marcos Suzano e Carlinhos Brown) e arranjado (pelo compositor Fernando Moura) no País. O disco, de 96, inaugurou uma longa série de parcerias com Moura, coroada no início de 2016 com uma turnê conjunta no Japão e pela criação da letra para Primeira Saudade (veja no final desta matéria), música que faz parte do mais recente álbum do brasileiro, Nos Meus Braços, também incluída no CD Musick, que Miya está lançando no exterior. O cantor, nascido na província central de Yamanashi há 50 anos, ganhou relevância mundial em meados de 1992, quando sua canção pacifista Shima-uta (também conhecida como Canção de la Isla) se tornou o single mais vendido na história da música no Japão. Mas isso são coisas do passado, conta Miya em entrevista exclusiva ao Kultme, explicando que quer dar uma reviravolta na carreira, dedicando seus próximos trabalhos a resgatar, de olho no público infantil, a arte e a cultura tradicionais.

De onde vem seu interesse pela música brasileira?
É uma antiga história. Eu costumava ouvir Bossa Nova no rádio quando ainda estava no colegial. Mas veja que interessante: eu achava que Bossa Nova era algo pra ouvir apenas, pra curtir, e na época nunca nem pensei em tocar uma daquelas canções. Mas depois que me tornei músico profissional passei a me interessar mais, e de forma diferente, pela música brasileira. Isso aconteceu inclusive porque nos anos 90 vários músicos brasileiros vieram tocar no Japão e pude ouvir os mais diversos estilos da MPB.

Alguém entre eles chamou sua atenção mais particularmente?
Sim, sim. Fui tocado especialmente pela Joyce.

E o Fernando Moura, como o conheceu?
Foi em 1996. Eu estava trabalhando em um álbum e decidi gravá-lo com uma pegada nova, com músicos brasileiros e no Brasil. Na época contatei Marcos Suzano e Carlinhos Brown, os convidei para produzir o disco.

Que disco foi esse?
O CD chama Afrosick… Bom, então convidei os dois para a produção e o Marcos me apresentou ao Fernando. Sugeriu que ele fosse o arranjador do disco. E foi o que rolou.

Como foi escrever a letra para Primeira Saudade, que Fernando gravou instrumental em seu recente CD Nos Meus Braços e você registrou em seu novo álbum Musick?
Então, o Fernando por muito tempo sonhava em ter um nenê e, ano passado, o sonho se realizou. Isso me tocou. Fiquei pensando – foi 21 anos depois que tive meu primeiro filho. Lembrei de quão feliz fui na época, e de que por um instante senti como seria difícil aquela nova vida em minha vida. Você sabe, fiquei pensando, “será que consigo cuidar bem de verdade dessa criança?”, porque o trabalho como músico é instável. Senti a responsabilidade de me manter saudável, com vivacidade, pra cuidar dele. Lembrei também que havia pensado que aquele menino adorável um dia se separaria de mim. Chamei essa sentimento de “Primeira Saudade” – e aí, bom, escrevi a letra.

Além dessa parceria com Fernando, que mais há em seu novo álbum?
Fiz parte da banda The Boom por 24 anos, período durante o qual escrevi pelo menos 150 canções para o grupo. Também escrevi outras músicas tantas para eu mesmo gravar com a Ganga Zumba, banda que criei com Marcos Suzano tendo como ideia central somar ritmos orientais e latinos. E compus várias músicas para outros cantores. Então quando comecei a trabalhar nesse disco eu tinha muito material na gaveta. O resultado é que metade do álbum é uma coletânea de canções anteriormente gravadas e lançadas em trabalhos solo ou com o Ganga Zumba. A outra metade é formada por novas composições e algumas regravações de músicas compostas para outros intérpretes.

Você escreve poesia, trabalha como ator e, claro, é cantor. Qual dessas atividades o encanta mais?
Eu gosto muito de escrever poesia, de criar melodias e de cantar. Eu posso me expressar de verdade quando faço essas coisas. Já como ator, bom, o ator interpreta uma história escrita por outra pessoa – tem a voz de outra pessoa. Então não consigo comparar essas duas coisas. Mas pensando nesse antagonismo, acho que prefiro me ver como cantor e compositor.

Ainda assim, sabe que o filme Kyoto Fire (Samurai X – Fim de uma Lenda), baseado no mangá Samurai X e no qual você atuou, foi muito bem recebido pelos fãs no Brasil?
Sério mesmo?

Sério. Como foi a atuar em um filme baseado em um mangá?
Nos mangás o ator geralmente atua de maneira muito histriônica, exagerada. Mas para mim meu personagem era um homem que realmente existiu. Quando eu estava atuando, tentava me esquecer de que se tratava de uma história em quadrinhos.

Fernando e Miya: parceria de longa data

Fernando e Miya: parceria de longa data

Voltando a sua paixão maior, a música, você já tocou várias vezes no Brasil. Há alguma diferença na maneira como o público brasileiro reage?
Sim, fui muito influenciado pela música brasileira – e acho que sempre busquei tocar no Brasil por curtir o resultado e para curtir o resultado de como o público reage. As pessoas gostam de ouvir músicas com as quais não estão acostumadas. Isso é revigorante.

Você completou 50 anos quase no mesmo momento em que trabalhava em seu novo disco. Esses dois eventos estão de alguma maneira relacionados?
Se passaram 50 anos desde que nasci e 26 anos do dia em que me tornei músico profissional. Esse meu novo álbum é ao mesmo tempo uma visão de todo meu passado e do meu momento atual. É como uma linha de corte. A partir dele quero deixar tudo isso de lado. Quero ir a um novo lugar, tomar um novo caminho.

Que caminho?
Sempre gostei da ideia de criar novas canções que ninguém ainda tivesse ouvido. Mas estou hoje em outro momento. O que quero agora é interpretar e criar músicas que dêem às crianças o sentido maior da cultura e da arte tradicionais, que elas precisam e devem conhecer. E saravá!

 

Letra de Primeira Saudade (Fernando Moura/Kazufumi Miyazawa

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Letra em japonês de Primeira Saudade, de Fernando Moura e Kazufumi Miyazawa

 

 

 

 

 

 

 

 

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Fonte: KultMe

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