A incrível história de Clyde Stubblefield

clydestubblefieldAlém de músicos, colecionadores de discos e DJ’s, o nome de Clyde Stubblefield não entusiasma muitos ouvidos. Mas você provavelmente já ouviu a bateria dele.

Se você já ouviu “Bring the Noise” ou “Fight the Power”, do Public Enemy, você conhece a bateria dele. Se você já ouviu “Mama Said Knock You Out”, de LL Cool J, ou qualquer música de Prince, dos Beastie Boys, do NWA, do Run-DMC, de Sinead O’Connor e até de Kenny G., você definitivamente conhece a bateria dele, embora Stubblefield não tenha gravado nenhuma delas.

Isso porque ele participou da gravação de “Funky Drummer”, um single de James Brown de 1970, cujos 20 segundos de solo de bateria se tornaram, pela maioria das contagens, a batida mais sampleada de todos os tempos. Tem sido usada centena de vezes, tornando-se parte do DNA do hip-hop, e no final dos anos 80 e início dos anos 90 era o sample mais procurado para quem queria imitar algumas ideias do hip-hop (daí a presença de Kenny G. na lista).

No entanto, o nome de Stubblefield quase caiu no ostracismo da história. Os primeiros rappers quase nunca deram crédito a ele ou pagaram pelos samples, e se o fizessem, o reconhecimento (e os royalties) foram para Brown, que detem os créditos como o compositor da música.

“Eu fiquei imaginando onde estava o meu dinheiro por toda minha vida”, disse Stubblefield com uma risada, aos 67 anos e ainda na ativa como baterista.

Um novo projeto tenta recuperar pelo menos alguns royalties para ele. Stubblefield foi entrevistado para o “Copyright Criminals”, um documentário de Benjamin Franzen e Kembrew McLeod sobre as brechas das leis de direitos autorais na música, e por um DVD especial do filme “Funky Drummer Edition”, lançado na terça-feira, no qual Stubblefield gravou um conjunto de batidas prontas para sample. Ao preencher um formulário básico de licença, qualquer um disposto a pagar 15 por cento de royalties sobre todas as vendas – e dar o crédito devido – pode obter o som de um dos arquitetos da percussão moderna.

“São mais rápidos, e são mais potentes, mas Clyde Stubblefield tem uma mão esquerda como nenhum baterista do século 20”, disse Ahmir Thompson, também conhecido como Questlove of the Roots, que tocou “Fight the Power” com ele e Chuck D., do Public Enemy, no “Late Night With Jimmy Fallon” da NBC, terça-feira, dia 29 de março de 2011. “Foi ele que definiu o funk”.

Nascido em Chattanooga, Tennessee, Stubblefield foi inspirado pelos sons das fábricas e dos trens a sua volta, e começou a carreira tocando com bandas locais. Um dia, em 1965, Brown o viu num clube em Macon, Geórgia, e o contratou na hora. Durante 1971 Stubblefield foi um dos principais bateristas de Brown, e em músicas como “Cold Sweat” e “Mother Popcorn”, ele aperfeiçoou um estilo de toques leves com um falso sincopado conhecido como “ghost notes” (notas fantasmas).

“Seus toques suaves definiram uma geração”, acrescenta Thompson.

“Nós só tocamos o que queríamos tocar na música”, Stubblefield disse numa entrevista por telefone na semana passada, referindo-se a si mesmo e a seu companheiro na bateria com Brown, John Starks, mais conhecido como Jabo. (Brown morreu em 2006). “Só tocamos o que achamos que deveria ser tocado. Ninguém me disse o que fazer”.

Era de se esperar que Stubblefield, que participou de algumas das maiores gravações de bateria da história, tivesse alcançado a fama, ou pelo menos uma lucrativa carreira como baterista. Porém, nos últimos 40 anos ele se manteve feliz em Madison, Wisconsin, tocando com seu próprio grupo e, desde o início de 1990, tocando no programa de rádio “Michael Feldman’s Whad’Ya Know?”.

Alan Leeds, cujo tempo como diretor de turnê de James Brown se coincidiu com o período de Stubblefield na banda, lembra dele como um músico talentoso, mas não ambicioso. “Ele era um cara divertido,” disse Leeds. “Mas se tinha um cara que se atrasava para a passagem de som, esse era Clyde”.

A tecnologia e as convenções de samplers – isolar o trecho de uma música a partir da gravação e reutilizá-lo para outra – também impediu um reconhecimento maior. “Funky Drummer” não apareceu em nenhum disco até 1986, quando foi parar em “In the Jungle Groove”, uma coletânea de Brown que foi selecionada pela nova geração de produtores de samplers.

A falta de reconhecimento incomoda Stubblefield mais que a falta de “royalties”, disse ele, embora isso também o deixe chateado.

“As pessoas usam as minhas levadas de bateria num monte de músicas”, disse ele. “Nunca me deram o crédito, nunca me pagaram. Isso não me incomoda nem me perturba, mas eu acho que é desrespeitoso não pagar as pessoas pelo que usam”.

Em 2002, Stubblefield teve que retirar um tumor no rim, e agora ele está no estágio final da doença renal. Ele não tem seguro de saúde.

O “Funky Drummer Edition” de “Copyright Criminals” inclui as levadas de Stubblefield tanto em vinil quanto em formato eletrônico, e além das licenças, ele também recebe um pequeno montante pelas vendas do DVD, diz McLeod, um professor adjunto de Comunicação da Universidade de Iowa. Como nos dias com Brown, Stubblefield também recebeu uma quantia pelas sessões de gravação para o filme.

Álbuns de “break” com levadas prontas não são novidade no hip-hop. Pelas suas contas, Stubblefield fez quatro ou cinco coleções, mas não foi pago por nenhuma delas.

“Eles nos enviaram documentos de royalties, mas não cheques”, disse de um desses álbuns feitos por uma empresa japonesa.

Para Stubblefield, a falta dos créditos não é apenas um problema com os DJ’s e produtores que copiam suas batidas. Foi também um ponto de discórdia com Brown, que era famoso por seu rigor – ele multava seus músicos por errar uma batida ou usar sapatos velhos – e também por não dar mais créditos aos músicos.

“Um monte de gente devia ter ficado com os créditos junto a James Brown,” Stubblefield disse, “mas ele só falava de si mesmo. Ele falava seu nome numa música ou algo parecido, mas era só isso”.

Isto também levanta a questão de saber se Stubblefield está violando qualquer direito autoral de James Brown ao gravar as levadas no estilo das gravações originais da banda de Brown. McLeod dispensa essa questão, dizendo que as levadas não são idênticas, e que os registros originais dos direitos autorais das músicas de Brown mencionam melodia e letras, mas não ritmo.

Além disso, McLeod acrescenta, o que existe é simplesmente um grande baterista fazendo seu trabalho.

“Isso é diferente de comprar um pacote de samplers para o Garage Band”, disse ele, referindo-se ao programa caseiro de gravação da Apple, “porque você sabe que o que está ouvindo e o que está sampleando é a genialidade do trabalho deste músico incrível. Clyde Stubblefield”.

Fonte: New York Times

Tradução: Drum Channel Brasil

 

 

 

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